Depois de na passada semana ter assistido ao programa televisivo, CONTRA A CORRENTE, sem que o esperasse, e perante o abalo que eu mesmo sofri ao assistir ao mesmo, não mais retive no meu pensamento o dia da semana em que o referido programa vai para o ar. Além do mais, eu mantenho ainda a impressão de que a terça-feira, para lá do programa, PROVA DOS NOVE, é um mau dia no domínio televisivo.
Foi, pois, por mero acaso que lá vi surgir António Barreto, sempre debitando a mesma cassete, para mais com aquele seu ar de quem não tem certezas a não ser a de que de tudo duvida e tudo deve questionar.
Acontece que, um pouco antes, tinham ali estado, naquele mesmo programa, Helena Garrido e Fausto Leite, que trataram com sabedoria e segurança do novo acordo de concertação entre o Governo, os patrões e a UGT. E nenhum teve dúvidas, com culturas diferentes, posições políticas porventura diversas, mas com um saber assente na leitura do documento, de que este se constituiu numa vitória dos patrões e numa derrota dos que se vêem obrigados a trabalhar sob o comando dos primeiros.
Em contrapartida, António Barreto não havia ainda lido o acordo, mas lá foi perorando, sempre com a utilização da sua já consabida cassete ideológica, e por via da qual o PS é mau, o PCP e o Bloco de Esquerda são péssimos, a CGTP algo para esquecer, os patrões excelentes, e este Governo uma entidade que não vai mal, mas que ele espera que consiga ainda ir melhor. E, se acaso precisássemos de uma prova real do valor substantivo das palavras de Barreto, um pouco mais tarde, lá teríamos as considerações de Alexandre Soares dos Santos.
Bom, Fausto Leite foi muito claro no que disse, ao salientar que este acordo poderá vir a ter desagradáveis incidências sobre a saúde dos que terão de vir a trabalhar num regime de verdadeira exploração desumana. Uma realidade a que Isabel Vaz, um pouco à frente, juntou que um cancro da mama custa ao redor de oitenta mil euros, o que só poderá ser suportado por cerca de um décimo de ponto percentual dos portugueses. Ainda assim, e já pelo final da conversa de Ana Lourença com Barreto, a entrevistadora lá referiu que Isabel Vaz apoiara a necessidade de co-pagamento na Saúde, o que não foi bem o caso, porque o que se deu foi um gesto de simpatia questionadora por parte da entrevistada: ela não disse isso, antes não negou tal, mas nas circunstâncias da entrevista, em que a pergunta foi já feita como se a resposta só pudesse ser afirmativa…
António Barreto, ao redor de tudo isto, e do que Ana Lourenço não lhe referiu, como tudo o que foi explicado por Helena Garrido e Fausto Leite, lá foi sorrindo, questionando-se – sempre questionando-se, claro – sobre o futuro do País, mesmo da Europa, mas sem nunca se dar por conhecedor de que Portugal, de facto, já hoje não tem futuro. Portugal, objetivamente, terá isto de hoje e mais disto mesmo no futuro. E também o que agora se diz ser excelente, mas que Barreto, quando deixou Portugal e foi para a Suíça, dizia ser horroroso: a emigração.
Estando ligado ao domínio da Sociologia, a uma primeira vista, e depois de um sorriso ligeiro, Barreto lá teceu algumas considerações sobre o tal estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, onde se referem os 25% de economia paralela, esquecendo-se, certamente por acaso, das considerações de há dias de Marcelo, a cuja luz o mal da corrupção é endémico em Portugal, já vindo de D. Afonso Henriques. E, sem se saber se sabe, também se não terá recordado das considerações do falecido e saudoso, António Henrique Rodrigues Maximiano, numa entrevista concedida a Carlos Cruz, onde referiu o panorama mundial médio do dinheiro circulante de um modo paralelo. Ou seja, digo agora eu: o estudo portuense fica-se, como é evidente, por uma estimativa por defeito. A verdade da economia paralela, indubitavelmente, será já hoje da ordem dos 30% do PIB.
Sobre tudo isto, tenho de confessar, que acabei por nada perceber da conversa de António Barreto: nem sim nem sopas, como usa dizer-se. Provavelmente, eu estaria já cansado de o ouvir, sendo que os outros dois canais estavam a debitar a bola nossa de cada dia.
Simplesmente, a noite estava contra mim, porque ainda tive de suportar a apregoada vitória de João Proença, de pronto reconhecida por Miguel Cadilhe, Artur Santos Silva, Augusto Santos Sillva, Daniel Bessa, Fernando Teixeira dos Santos, Alexandre Soares dos Santos, ao mesmo tempo que alguém do PS, em nome do partido, expunha a sua posição, ontem melhor explicitada por Carlos Zorrinho: nim. Ou seja, uma noite verdadeiramente em cheio, mas para mim verdadeiramente confrangedora. No meio de todo este vendaval, com ênfase muito particular para a apregoada vitória de João Proença, as palavras de Torres Couto. Uma espécie de aspirina para pré-velhotes, à beira de um ataque de nervos. Dificilmente o atual líder poderia deixar a liderança sindical no meio de maior apoteose, com a generalidade deste Governo neoliberal e do patronato a tecerem ao acordo os mais fantásticos elogios. Uma apoteótica vitória sindical simplesmente confrangedora! Aliás, toda uma noite televisiva confrangedora!!