JORNAL ONLINE-REGISTO ERC Nº 125301 - DIRECTOR : LUIS PEREIRA

O novo director nacional da PSP

HÉLIO BERNARDO LOPES, Hélio Bernardo Lopes escreve para o Notícias do Nordeste diariamente. É Autor de uma vasta obra que se distribui pelo texto jornalístico, pelo ensaio e pela ficção. Professor universitário, Humanista e matemático de formação, leccionou no ensino superior, tendo sido professor na Escola Superior de Polícia. Exerce escrita diariamente, sendo colaborador de um considerável número de jornais regionais.

NN - publicado Domingo, 29 de Janeiro de 2012

            

De um modo inquestionavelmente objetivo, os conflitos entre os atuais governantes e os dirigentes superiores das instituições do Estado não param de suceder-se. A uma primeira vista, e para os mais incautos, o Governo terá sempre razão, tal como sempre se deu em situações similares e com outras áreas políticas no exercício do poder.

Foi nestes termos que, mal este Governo chegou ao poder, nos surgiu a já histórica telenovela das secretas, que não pára de fornecer episódios novos, mais verdadeiros ou menos assim, que vão surgindo a um ritmo quase diário.

De igual modo, têm-se feito ouvir protestos diversos ao nível dos militares, seja com manifestações diversas, seja por via de declarações proferidas por figuras castrenses mais ou menos prestigiadas. E, em casos muito raros, até com concidadãos nossos extremamente desprestigiados…

Mais recentemente – nos últimos dias –, a Associação dos Profissionais da Guarda – GNR – veio salientar o mal-estar que reinará nas fileiras da Guarda Nacional Republicana, no que se constitui numa verdadeira réplica do que vem tendo lugar com a PSP e que recentemente levou à exoneração do seu líder, Guilherme Guedes da Silva.

Numa área diametralmente oposta, também aAdministração do Centro Cultural de Belém se demitiu em bloco, na sequência da inacreditável razão para da respetiva presidência retirar António Mega Ferreira. E, note-se, que estas recentes demissões em bloco envolveram João Caraça, Laborinho Lúcio, Clara Ferreira Alves, Lídia Jorge, Vasco Vieira de Almeida e António Rebelo de Sousa.

Sobretudo ao redor da temática da segurança, mas que acaba por constituir-se numa excelente estimativa do que hoje vai no domínio do exercício do poder, convém que o meu caro leitor procure e reflita no artigo, muito recente, de José Braz, intitulado, A HIPOCRISIA, surgido num grande diário nacional. Não podia escolher-se um título melhor para o que hoje se passa entre nós, seja no domínio da segurança dos cidadãos, seja na globalidade da nossa vida social.

Ao mesmo tempo, as inoportunas e infelizes palavras do Presidente Cavaco Silva, em torno da sua situação salarial, que mereceram as mais acerbas críticas dos mais diversos e inesperados quadrantes. O volume de assinaturas da recente petição online sobre este tema, para lá do seu valor constitucional, mostra bem como estas declarações tocaram o âmago do sentimento coletivo português.

De resto, este sentimento vai ainda mais longe, com Mário Soares a fazer-se eco do mesmo numa sua recente intervenção em Coimbra, onde voltou a salientar uma realidade que já começa a chocar uma enorme parte dos portugueses: a Troika trata Portugal como um criado. Pois, se assim o faz, é porque há quem o consinta, com tal colaborando, ou mantendo-se silencioso.

Foi, pois, com espanto que neste sábado pude ler que o Presidente Cavaco Silva estará em desacordo com a ideia do Governo de pôr em funcionamento um estado reduzido ao seu miniminimorum imaginável. Ou antes, que muitos nunca conseguiram imaginar. E isto é só o que já se pôde ver, porque por este andar, com a fatal Maioria-Governo-Presidente de pensamento neoliberal, bom, tudo de pior será de esperar. Talvez mesmo por muitos anos.

O mais interessante desta notícia é o facto da mesma colocar, aparentemente, o Presidente Cavaco Silva numa (suposta) rota de colisão com o Governo no caminho que este tem percorrido de um modo absolutamente linear, sem um ínfimo que se tenha visto de parecido com a sua intervenção pública no tempo da governação de José Sócrates.

De pouco serve esta (suposta) colisão de pontos de vista, porque a mesma terá no Governo de Pedro Passos Coelho o mesmo efeito que o facto de ser professor de Economia e de Finanças teve no estado em que Portugal hoje se encontra, já com uns razoáveis milhões de portugueses sem futuro e a terem de procurar salvar a vida por via da emigração.

Se o Presidente Cavaco Silva realmente discorda do caminho deste Governo para o Estado mínimo, a verdade é que o mesmo continua a ser prosseguido sem ruído, de um modo perfeitamente linear. Discordar, neste caso, vale o mesmo que não ter um qualquer ponto de vista sobre o tema.

No meio de tudo isto, uma notícia para mim muitíssimo agradável: a indigitação do superintendente Paulo Valente Gomes para liderar a Polícia de Segurança Pública. Um agrado que resulta do conhecimento que pude com ele travar ao longo de muito tempo, já com a patente de comissário. De resto, o mesmo aconteceu, e diariamente, com o pai, oriundo da antiga carreira policial, mas também comissário e de há muito aposentado.

Devo aqui dizer que, por razões diversas, que, aliás, facilmente se compreendem, se estivesse no lugar de Miguel Macedo e tivesse que escolher entre Guilherme Guedes da Silva e Paulo Valente Gomes, escolheria sempre este, mau grado a enorme experiência operacional do primeiro, em todo o caso muito longe do perfil vasto, e a níveis diversos, com exceção do operacional, de Paulo Valente Gomes.

Tal facto, porém, não me impede de reconhecer a completa razão do (ainda) líder da PSP, Guilherme Guedes da Silva, ao referir que as restrições orçamentais e tudo o que a Lei do Orçamento de Estado impõe colide com as pessoas, com as suas expectativas de carreiras e promoções, e com expectativas salariais dos polícias. A evidência, mas que custa muito ter de ouvir a partir de alguém na posição de Guilherme Guedes da Silva.

Mas disse mais, o (ainda) Diretor Nacional da Polícia de Segurança Pública: que o mal-estar que se vive dentro da PSP é semelhante ao que grassa em toda a sociedade, sendo que a PSP está integrada na sociedade. Outra evidência, mas que é uma chatice quando é publicamente reconhecida por alguém na posição de Guilherme Guedes da Silva.

Sendo tudo isto verdade, não deixei de achar estranha a entrevista de Hélder Andrade, porque podendo ter razão na análise das caraterísticas de Guilherme Guedes da Silva, a verdade é que as assinaturas de quase três dezenas de superintendentes e os protestos no Aeroporto de Lisboa não podem ser vistos como traduzindo um mal-estar intencionalmente causado pelo actual Diretor Nacional. Aliás, as críticas de hoje são já de há muito, e prendem-se – nas Forças Armadas é o mesmo – numa objetiva desvalorização da função policial, olhada como menor ou inutilmente gastadora pelo poder político.

Um dado é certo: ou Paulo Valente Gomes consegue resolver o que está em causa no mal-estar que se vive na PSP, tal como se tem podido ouvir e ver, ou, em princípio, esse mal-estar irá continuar, porventura, mesmo crescer.

Por fim, um dado importante, na sequência dos mil e um encómios vindos a público em favor da qualidade de Paulo Valente Gomes, o que, sendo uma realidade inquestionável, também constitui uma outra hipocrisia. Refiro-me ao caso da antiga carreira policial face à mais moderna, de que fazem parte os oficiais como Paulo Valente Gomes, oriundos da antiga Escola Superior de Polícia, hoje Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna.

Ter-se-á esquecido Hélder Andrade das constantes críticas – injustíssimas, em boa verdade – feitas pelos guardas da PSP e dos oficiais da antiga carreira aos oficiais saídos da nova estrutura de ensino superior policial. Não deixa de ser espantoso como, num ápice, essa injusta crítica foi logo obliterada, como se nunca tivesse tido lugar… As voltas que o Mundo (da política) dá!

E já agora, e mesmo para finalizar, não quero deixar de salientar, por ser verdade, que Guilherme Guedes da Silva não é mação nem da Opus Dei. Uma realidade que é importante, agora que se voltou a reabrir a caça às bruxas sobre a Maçonaria. E também formular os mais sinceros votos para que Paulo Valente Gomes venha a conseguir dar um rumo realmente novo e melhor à PSP e aos que a servem.



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