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Como tudo parece simples
HÉLIO BERNARDO LOPES escreve para o Notícias do Nordeste diariamente. É Autor de uma vasta obra que se distribui pelo texto jornalístico, pelo ensaio e pela ficção. Professor universitário, Humanista e matemático de formação, leccionou no ensino superior, tendo sido professor na Escola Superior de Polícia. Exerce a escrita diariamente, sendo colaborador de um considerável número de jornais regionais.
Publicado sábado, 30 de janeiro de 2010 | Por: Hélio Bernardo Lopes

Lá nos foi possível ouvir mais uma entrevista concedida por João Salgueiro ao Diário de Notícias e à TSF, nas pessoas, respetivamente, de João Marcelino e Paulo Baldaia. A uma primeira vista, pois, tudo pareceu simples, mesmo fortemente linear. Falou de tudo e de todos, referindo até, en passant, Marcelo Caetano, no que foi a sua primeira experiência governativa, mas de que logo se terá arrependido, porque as coisas não davam sinais da mudança que achava dever impor-se. Falou de Cavaco Silva, que reconheceu ter tomado algumas medidas corajosas quando foi Primeiro-Ministro de Portugal. Nada disse, porém - também não lhe perguntaram nada sobre tais temas -, sobre o modo como abordou o caso do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, ou sobre como interveio no caso Dias Loureiro, ou sobre a célebre historieta das escutas, ou vigilâncias, nem sobre a tensão que criou na relação com o Governo legítimo do País, muito em especial, depois da corrida imposta a Luís Filipe Menezes pelos barões do PSD. Mas falou também de Manuel Alegre, que reconheceu ser um bom poeta, e um cidadão com uma forte e importante intervenção pública ao longo de toda a sua vida, e cujo desempenho da função presidencial dependerá, acima de tudo o mais, do cumprimento dos preceitos constitucionais e da sua prática assentar numa boa agenda. De igual modo, referiu-se também a José Sócrates, com quem disse ter até tido sempre uma boa relação, e que até, sob certos aspetos, tinha sido um governante que se impôs. O grande problema, porém, é a agenda: se for boa, ou seja, como a entende, pois, tudo bem, de contrário, o melhor é sair. E falou, claro está, sobre Pedro Passos Coelho, embora se tenha esquecido de que o atual singular candidato a líder do PSD entrou na política pelas jj, as tais jj a que João Salgueiro, Henrique Medina Carreira ou José Pacheco Pereira tantas críticas sempre fizeram, por serem a fonte que permite subir na escala política sem um ínfimo de experiência ou de provas dadas. E de facto, no Reino Unido, simplesmente não poderia Passos Coelho ter a iniciativa que se lhe vê hoje, porque tal não é suscetível de ser aceite. Ora, isto é, precisamente, o que se dá com Pedro Passos Coelho, que se limitou a entrar no PSD pelas jj, tornando-se assim deputado, mas sem uma qualquer outra experiência de governação, mesmo que autárquica, ou de simples freguesia. Não foi, sequer, subsecretário de estado, que Marcelo Caetano. Não deixa de ser espantoso como de um dia para o outro se muda de discurso e de base crítica na apreciação do modo como se faz carreira política em Portugal. Ainda ontem as jj eram como que um cancro na nossa vida política, e logo hoje já nada tem de mal que se possa apresentar a candidato à chefia do Governo quem nunca infimamente dominou a língua da governação. Mais um sinal dos tempos. E isto depois do que se viu com Pedro Santana Lopes, que ao pé de Pedro Passos Coelho tem um currículo incomensuravelmente superior! Por fim, um argumento de novo usado nesta entrevista por João Salgueiro: quem quiser investir em Portugal, quer saber como isto é e o que se passa por cá. Portanto, quando olha para Espanha, que decisão toma? Ora bem, investe na China, ou na Índia, ou nas Filipinas, ou na Indonésia. Pois não é o que se vem vendo?! Ou seja, quase certamente, tomará a decisão que tomaram os muitos milhares de portugueses que estão deixar aquele país devido ao desemprego. Tudo me faz crer que João Salgueiro de há muito não visita Almeida ou Vilar Formoso, porque se o fizesse, saberia que os residentes daquelas localidades estão velozmente a deixar de comprar em Espanha, para não referir já a diminuição acentuada de espanhóis que ali se deslocam, individualmente ou em excursões. Em contrapartida, na verdadeira causa de tudo isto, que foi a crise financeira criada ao Mundo por bandidos da estirpe de Bernard Maddoff, é que João Salgueiro nunca falou. Ou antes, cheguei a ouvir-lhe dizer, como também a António Borges, que a culpa era de todos, porque se haviam deixado levar pela corrida ao consumo! Ou seja, entre o meu caro leitor e Bernard Maddoff, pois, não há diferença!! Estranhamente, nenhum dos jornalistas o questionou sobre o que se está a passar nos Estados Unidos, ou sobre as medidas tomadas em alguns países europeus, mas sobre as quais, quem é rico em Portugal nem quer ouvir falar... Ou sobre se terá sido lógica a referência do Presidente Cavaco Silva ao perigo da situação explosiva nacional, com todo o Mundo financeiro a ouvi-lo assim enfraquecer publicamente a realidade económica e financeira do País. Enfim, ao ouvirmos João Salgueiro falar como nesta entrevista, tudo parece simples. O problema é que ele a falar é como o Sol a corar: é facílimo e não custa nada.

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