JORNAL ONLINE-REGISTO ERC Nº 125301 - DIRECTOR : LUIS PEREIRA

O salário presidencial

HÉLIO BERNARDO LOPES, Hélio Bernardo Lopes escreve para o Notícias do Nordeste diariamente. É Autor de uma vasta obra que se distribui pelo texto jornalístico, pelo ensaio e pela ficção. Professor universitário, Humanista e matemático de formação, leccionou no ensino superior, tendo sido professor na Escola Superior de Polícia. Exerce escrita diariamente, sendo colaborador de um considerável número de jornais regionais.

NN - publicado Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

            

Determinei-me a escrever este texto na sequência das mui pouco precisas declarações de Luís Delgado sobre o salário anual do presidente dos Estados Unidos: seria de um milhão de dollars. Uma afirmação que de pronto me levou a torcer o nariz, filho, como sou, de um norte-americano por naturalização, e com duas irmãs americanas. E dissepara comigo: não é verdade!!

Pois, o leitor pode confirmar isto mesmo através da INTERNET, onde encontrará como salário anual de Barack Obama o valor de quatrocentos mil dollars, ou seja, cerca de trezentos e dez mil euros, sendo o do vice-presidente um pouco superior a metade, isto é, perto de cento e setenta mil euros. Num ano, claro está.
Foi, pois, com uma imensa graça que tomei conhecimento, no passado domingo, da explicação de Marcelo, em plena TVI, para as palavras do Presidente Cavaco Silva: saiu-lhe mal. Mas achei ainda mais graça, rindo mesmo e com gosto, às considerações de Maria Filomena Mónica na edição de ontem do Diário de Notícias, e que reproduz no blogue, PAU PARA TODA A COLHER. Vale a pena ler, porque não mais se esquecerá.

Simplesmente, por via do convite feito pelo Presidente Cavaco Silva, os jornalistas lá nos explicaram a realidade do seu vencimento mensal. No ano que há pouco findou, o seu montante anual declarado ao Tribunal Constitucional andou à volta de cento e quarenta e um mil euros, ou seja, cerca de dez mil euros por mês. Desconheço se este montante já engloba o valor anual auferido por Maria Cavaco Silva, ou seja, cerca de onze mil e duzentos euros. E, a tudo isto, cerca de três mil euros mensais para despesas de representação, para lá de todas as facilidades que naturalmente sempre terão de conceder-se ao Presidente da República.

Tudo isto, porém, no ano civil que passou, não englobou o vencimento de Presidente da República, porque a isso obrigou a legislação entretanto publicada. Situação que não vigorava ainda para o ano anterior, ou seja, 2010. Neste ano, portanto, e segundo uma estimativa surgida num órgão de comunicação social nacional, o valor auferido terá rondado os duzentos e cinquenta mil euros por ano. Convém, por isso, perceber que este valor anda próximo do atual de Barack Obama, superando o Joe Byden, vice-presidente dos Estados Unidos.

Ora, num texto meu de há uns dias, eu chamei a atenção dos leitores para os baixíssimos valores das reformas do Presidente Cavaco Silva e de sua mulher, mas só por via das suas intervenções docentes. Mas ontem mesmo, eu determinei-me a procurar os vencimentos de professor catedrático, nos primeiro e quarto escalões, e nos regimes de exclusividade ou não. Assim, no quarto escalão e com exclusividade, um catedrático aufere mensalmente o valor de cinco mil e quatrocentos euros, sendo que sem exclusividade e no primeiro escalão o valor é de três mil e cem euros. Aquele é o valor máximo para um catedrático, esteo mínimo. Qualquer deles, pois, muitíssimo acima dos tais mil e trezentos euros referidos pelo Presidente Cavaco Silva. Volto, pois, a deixar aos leitores esta pergunta: qual a explicação que encontram para os valores referidos pelo Presidente Cavaco Silva, para si e para sua mulher?

Acontece que os portugueses, na sua enormíssima generalidade, estão a viver nas apertadinhas, numa situação que se não é de indigência, é de pré-indigência ou a caminho disso. A todos nós foram cortados os décimos terceiro e quarto mês, pelo que, devendo o exemplo vir de cima, nunca se deixará de ver como errada uma decisão em contrário do Presidente Cavaco Silva face o que deverá vir a receber para lá dos tais mil e trezentos euros mensais que referiu.

A este propósito, está aí, e bem vivo e recente, o exemplo dado por António Horta Osório, prescindindo de perto de dois milhões de euros, explicando: acho que o meu bónus deve refletir a difícil situação financeira que muitas pessoas enfrentam. Ou seja, estando acima, e perante a realidade difícil do povo de onde provém, deu ele mesmo o exemplo.
Por tudo isto, têm razão todos os que se determinaram a protestar contra as recentes palavras do Presidente Cavaco Silva: Carlos César, quando diz que tais palavras foram infelizes e inapropriadas, e impróprias de um Presidente da República; o Partido Popular Monárquico, ao manifestar a sua condenação e o seu repúdio por tais palavras, esperando uma manifestação de arrependimento público, e estabelecendo uma comparação com a atitude de D. Carlos I em 1892.

É verdade o que ontem recordou Manuel Alegre, mas também o é que boa parte dos portugueses, de parceria com a esquerda eternamente dividida em capelinhas e esquecida dos perigos que estavam em jogo – foi por isso que a II República durou quarenta e oito anos…–, lá acabaram por levar Aníbal Cavaco Silva à sua primeira vitória, embora por apenas trinta mil votos de vantagem. Bom, foi o maior erro cometido pelos eleitores portugueses nesta III República, por aí acabando por surgir a tal Maioria–Governo–Presidente que nunca aceitou a Constituição de 1976 e hoje dela vai dando cabo. Dela e da própria democracia, como também já se vai podendo ver.

A tudo isto há ainda que juntar mais este interessantíssimo dado, ontem vindo a público: cada um dos três ex-presidentes custará aos portugueses trezentos mil euros por ano… Uma fantástica maquia, embora me custe perceber os fundamentos de uma tal estimativa. Será útil que quem escreveu esta notícia a especifique um pouco melhor, de molde a poder ser cabalmente entendida.

Por fim, três notas, mas com grande significado.Nos Estados Unidos, cujo modelo está hoje a ser rapidamente aplicado em Portugal, o milionário MittRomney, vivendo de rendimentos, paga 15% de impostos, mas os que para ele trabalham pagam 40%. No entretanto, Barack Obama ainda acaba por pagar 26%. Isto, meus caros leitores, é que é a democracia à americana e que está agora a ser rapidamente implementada em Portugal por este terno, Maioria–Governo– Presidente.

A segunda nota refere-se à interessantíssima entrevista do Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, ao programa, Sociedade das Nações, de Martim Cabral e Nuno Rogeiro. Uma entrevista onde explicou a constante recusa da Reserva Federal em explicar aos americanos as causas do desaparecimento do dinheiro, logo que despoletada esta crise criminosa. Após mil e uma vicissitudes, e a todos os níveis do Sistema de Justiça dos Estados Unidos, lá se veio a saber o destino do dinheiro aparentemente desaparecido: o Goldman SachsInternational… Ou seja: afinal, o dinheiro existe, está é muitíssimo mal distribuído – um questão de ética política – e de um modo intencional.

E, realmente por fim, a terceira nota: Christine Lagarde já começou a perceber que o caminho para a resolução do problema europeu, para mais com uma nova depressão do tipo da dos anos trinta do século passado à vista, não chegará com a metodologia da austeridade. De molde que começou a chamar a atenção dos dirigentes europeus para esta realidade, há tanto explicada pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP.



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