Não pode deixar de impressionar os mais atentos e interessados na vida pública o que se vem passando, como usa dizer-se, com as secretas. Inquestionavelmente, e tal como ao tempo pude referir a amigos diversos, alguns que até vieram a pertencer mais tarde às mesmas, com a criação destas estruturas, de um modo muito geral, completamente inúteis à nossa comunidade nacional, estavam a semear-se ventos… Ventos que têm causado tempestades diversas, a maior das quais, como teria de dar-se, é a que atualmente nos surge diariamente na comunicação social.
Teria, como agora já se percebe, de vir a ser assim, dado que uma situação similar tem vindo a ter lugar por mil e uma outras instituições, mormente com o que se pôde já ver com a Polícia de Segurança Pública, mas também com a agitação que não pára no seio da família militar, ou com o descontentamento que grassa nas fileiras da GNR.
O leitor, tendo em conta o que tem vindo ao conhecimento público, percebe que se pode dispor do número de telefone de alguém, sem que tal tenha um ínfimo de mal, e desde que por aí se não usem condenáveis práticas ilícitas. As notícias, porém, permitem múltiplas leituras, umas dando a entender estranhas ligações prévias, outras mostrando que, afinal, existiriam velhas vítimas de tudo isto, e outras, ainda, tentando semear a possível realidade por mil e uma aldeias. Ou seja: uma barafunda que nunca será levantada.
O que é, afinal, que se pode tomar como certo, dentro de limites muito garantísticos, em torno de todo este caso das secretas? Bom, que nos dias que correm, com exceção de casos como o de organizações religiosas secretas, a fidelidade ideológica vale pouco ou nada. Ou seja: não é por se ter sido nomeado por certo Governo que se não passa logo a servir o que vier a seguir. E a razão é elementarmente percetível: deixou de haver valores, com a natural exceção do religioso. No fundo terá sido este o pensamento de Spínola, ao nomear o seu velho amigo, Rogério Coelho Dias, para substituir Silva Pais na liderança da antiga Direção-Geral de Segurança, logo depois do 25 de Abril.
Por tudo isto, começa a perceber-se muitíssimo melhor o que poderá ter estado por detrás da recente retoma da perseguição à Maçonaria. De resto, teria sempre de perceber-se como estranho que só esta instituição secreta fosse o alvo de tanto palavreado. São muitas as suas congéneres, e a luta faz-se entre elas, mas por via das lutas entre os que detêm o poder, visto ele aos diversos níveis, desde os diversos maioritários, aos inversos minoritários.
Num ápice, chega mesmo a assistir-se a um tocar dos extremos, com aparência de acaso, e, como tantas vezes acontece, com estranhíssimas supostas doenças pelo meio. Uma realidade sobre que tantas vezes pude escrever aos meus caros leitores e que sempre me traz ao pensamento, O DESPERTAR DOS MÁGICOS, de Jacques Bergier. Uma realidade mais que esperada e desde há muito.
É bom, pois, recordar esta velhinha conclusão: quem semeia ventos, colhe tempestades. Assim se deu com o Bloco Central, que lamentavelmente introduziu a inútil e sempre perigosa comunidade de informações no seio da sociedade portuguesa, logo com a primeira tempestade surgida na governação de Cavaco Silva, ao tempo da respetiva regulamentação. Desde então, e até à atual barafunda, é o que se tem visto.
Termino, pois, com esta nota: nunca na vida dos grandes Estados, o líder de um serviço secreto chegou ao topo do poder político, com as singularíssimas exceções de Youri Andropov, na extinta URSS, e de George Bush, nos Estados Unidos. E a razão é simples e conhecida por vias diversas: os serviços secretos são sempre estruturas de mãos sujas. Pois, se assim não fosse, não eram secretos nem existiria a legislação sobre segredo de Estado, que os transforma numa espécie de Estado dentro do Estado.