As declarações de ontem de Manuel Alegre num jantar em Coimbra, no meio do cabal marasmo político-social em que hoje vive a sociedade portuguesa, constituíram um conjunto de palavras de verdade que se tornaram já raras. E o mesmo se pode dizer da natural reação de Manuel Carvalho da Silva, ao abandonar a designada concertação social. É pouco, sem dúvida, mas, como costumo dizer, sempre é maior que zero.
Teve razão, sem dúvida, ao referir que o anterior Primeiro-Ministro, José Sócrates, devia ter pedido a demissão depois daquele infeliz e inoportuno discurso do Presidente Cavaco Silva na sua segunda tomada de posse. Mas é essencial não perder de vista o que desde então se passou no País, com o evidente silêncio do Presidente da República em face do descalabro social que atinge os portugueses, hoje num beco sem saída e sem um futuro mÍnima percetivelmente capaz.
Importante, porém, é perceber que, ainda que o PS de José Sócrates voltasse a vencer as eleições, e até com maior folga do que a conseguida, tal não poria um fim nas sucessivas atitudes do Presidente Cavaco Silva, na peugada do que já se vinha vendo e desde há muito. Atitudes que nunca mereceram, salvo muito raras exceções, uma reação capaz dos dirigentes ou ex-dirigentes do PS.
Mas Manuel Alegre teve por igual razão ao apontar a necessidade do PS voltar a defender os seus valores e a sua matriz fundacional, porque o que hoje pode realmente observar-se é tão-só isto: o PS de António José Seguro, muito objetivamente, não tem liderança, simplesmente colocado numa posição de suporte diplomático do atual Governo neoliberal, para ser vista lá por fora, sem que se saiba muito bem por quem e com que resultados esperados. Basta olhar as recentes avaliações das empresas de notação financeira e o caminho que está a levar a União Europeia e o Mundo, perante as batatinhas brandidas por um PS à beira da inexistência política visível.
A juntar a tudo isto, de realmente significativo, só a tomada de posição de Manuel Carvalho da Silva, em nome da CGTP e na dita concertação social. Uma atitude corajosa que contrastou com o espírito de completa cedência, mais uma vez, de Miguel Sousa Tavares, naquele seu comentário de ontem na SIC.
Crescem o desemprego, a pobreza e a miséria, por cá, pela famigerada União Europeia e pelo Mundo, mas o discurso de Miguel Sousa Tavares é uma segunda via das palavras do Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho. Para Sousa Tavares, o mal parece vir da CGTP, de Manuel Carvalho da Silva, do PCP e do Bloco de Esquerda. Para já não referir o PS de António José Seguro, que o comentador, e aqui com razão, diz simplesmente não existir. Para Sousa Tavares o socialismo não é para se defender e tentar aplicar…
Muitas vezes me tenho interrogado, em conversas com gente amiga ou conhecida, com estas palavras: para que é que esta malta andou para aí a dar vivas a Abril e a prometer mundos e fundos, se coisa muito melhor acabaria por ser conseguida, com passos atrás e à frente, por parte do anterior regime constitucional, falecido que estava já Salazar, que havia sido o seu fundador?!
Para Manuel Carvalho da Silva, pois nunca restaram dúvidas de que o PS, com a sua intervenção na História desta III República, foi a entidade que foi abrindo, e sucessivamente, as portas ao regresso da direita ao poder. Até com o extraordinário apoio que sempre deu a Michail Gobachev, autêntico coveiro de um regime de que se dizia defensor e restaurador, embora sempre servindo os interesses geostratégicos dos Estados Unidos. Hoje, como se vai vendo, é o porta-voz de Hillary Clinton na nova Rússia…
Em contrapartida, já me parece muito tardia esta reação justa e humana de Manuel Alegre. Simplesmente, e mau grado a verdade das suas palavras de ontem, estas vêm já demasiado tarde. De resto, quando José Sócrates era posto em causa, por via da sua política e dos seus resultados, naquele infeliz e inoportuno discurso do Presidente Cavaco Silva, os históricos do PS, mormente Mário Soares, Almeida Santos, Jorge Sampaio, António Guterres e vários outros nada vieram dizer a terreiro. Pelo contrário, Mário Soares, em momento fulcral, o que foi dizendo – continua a fazê-lo – foi que Pedro Passos Coelho era uma pessoa simpática e com quem se podia dialogar! E mesmo há dias, nesta sua inútil entrevista ao Terreiro do Paço, lá voltou a dizer que o Primeiro-Ministro é uma pessoa que considera séria. Mas será que Soares acha que algum dos anteriores detentores do cargo não era sério? Bom, nunca nada se lhe ouviu em tal sentido.
Sejamos claros: a Constituição de 1976, tal como o espírito de Abril, estão mortos. Uma situação que só foi possível por esta razão simples: o socialismo democrático, por nada realmente ser, faliu, assim abrindo as portas, após o fim do comunismo, ao triunfo neoliberal que trará ao Mundo e aos seus povos o desemprego, a pobreza e a miséria, mas que precisa, como a boca do pão, de que funcionem democracias, mesmo que de simples fachada. Tardias palavras de verdade, foram estas de ontem, de Manuel Alegre.