JORNAL ONLINE-REGISTO ERC Nº 125301 - DIRECTOR : LUIS PEREIRA

Três momentos plenos de graça

HÉLIO BERNARDO LOPES, Hélio Bernardo Lopes escreve para o Notícias do Nordeste diariamente. É Autor de uma vasta obra que se distribui pelo texto jornalístico, pelo ensaio e pela ficção. Professor universitário, Humanista e matemático de formação, leccionou no ensino superior, tendo sido professor na Escola Superior de Polícia. Exerce escrita diariamente, sendo colaborador de um considerável número de jornais regionais.

NN - publicado Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

            

A passada semana forneceu aos portugueses mais atentos, e nalguns casos mesmo aos minimamente atentos, três momentos que, no meio da desgraça que os portugueses vivem, e que veio para ficar, lá conseguiram criar no seu espírito algum sentimento de graça. Refiro-me às declarações de Vítor Feytor Pinto sobre a procriação medicamente assistida e sobre as barrigadas de aluguer, às do Presidente Cavaco Silva sobre as suas limitações salariais, e à de Vítor Ramalho no Jornal das Nove, entrevistado por Mário Crespo.

Quanto às considerações de Vítor Feytor Pinto, é sem dúvida engraçado ouvi-lo dizer que aqueles temas servem, neste momento, apenas para desviar atenções. Bom, como facilmente se percebe, trata-se de uma afirmação sem um ínfimo de realismo, mas por esta simples e evidente razão: ninguém hoje liga a temas desta natureza, dado que os portugueses aceitam tudo e umas botas mais, desde que não lhes cause problemas imediatos.

E então Feytor Pinto vai mais longe, explicando que o que está em jogo é um problema ético, que tem muitas consequências negativas para a família. Mas eu pergunto: o leitor, ao nível das suas convivências correntes, já viu alguém preocupado com estes temas? Pois, a minha convicção é que não. Nenhum português corrente, no tempo que passa, gasta um minuto a pensar ou a discutir tais temáticas.
Mas o padre toca o limite da argumentação ao referir que a sociedade portuguesa tem problemas tão graves para enfrentar, devido à crise económica, que debater este assunto é perda de tempo. E explica: quando estiver tudo calmo, quando tivermos possibilidade de estar a refletirsobre esses problemas com serenidade, sem as pressões que hoje a austeridade nos traz, vale a pena estudar isso!!!

Bom, fiquei estupefacto, porque pretender que a procriação medicamente assistida ou as barrigas de aluguer tenham que seguir esta agenda, bom, seria nunca vir a discutir tais temas, porque esta crise financeira, económica e social veio para ficar e está aí para durar.

Sobre os valores salariais do Presidente Cavaco Silva, a graça foi também acompanhada dum estrondoso espanto. Muito sinceramente, eu nunca imaginei que um Presidente da República, numa situação como a que a generalidade dos portugueses vive hoje, pudesse vir abordar este tema do modo como o fez Aníbal Cavaco Silva.

Sabemos agora, na sequência da sugestão que deu aos jornalistas, que o vencimento anual anteriormente declarado pelo Presidente Cavaco Silva foi de perto de uma centena e meia de milhar de euros por ano, ou seja, cerca de dez mil euros por mês. Uma realidade a que tem de adicionar-se os tais oitocentos euros de Maria Cavaco Silva.

De resto, o Presidente Cavaco Silva, na sequência de decisões legais anteriores, optou, precisamente, pela melhor situação das duas, ou seja, pelo cúmulo das pensões de reforma, em detrimento do vencimento de Presidente da República. Além do mais, há que somar a tudo isto, vastas benefícios com despesas de representação, carros, telefones, computadores, telemóveis, alimentação, viagens, e até, se necessário, duas outras casas, que são o Palácio de Belém e o dos Duques de Bragança, em Guimarães, com uma ala destinada a tal fim, se necessário.

De tudo isto, porém, há dois dados importantes a reter. Por um lado, e como agora se soube publicamente, a sua reforma de professor é baixíssima, tal como a de sua mulher: respetivamente, mil e trezentos e oitocentos euros por mês. Ora, isto permite colocar aos leitores uma ideia: falem com gente vossa conhecida, e perguntem qual a reforma de um catedrático, desde que tenha atingido a jubilação, ou de uma professora do secundário que tenha atingido o topo da carreira no ensino público, e comparem com os valores agora conhecidos. A partir daí, bom, pensem e tirem as vossas conclusões. É facílimo.

Por outro lado, esta declaração, se vista com atenção, o que deixa no ouvinte é a ideia de que o casal Cavaco Silva simplesmente ganharia dois mil e cem euros mensais, o que seria baixíssimo. Se assim fosse, pois, tal determinaria alguma resignação junto do nosso tecido social, cujos vencimentos, se existirem, são, esses sim, os mais baixos e desumanos da União Europeia. Ou andarão muito perto disso.

Enfim, mais uma intervenção extremamente inoportuna do Presidente Cavaco Silva no seu exercício de funções, e que acabou por constituir, como muito bem referiu Jerónimo de Sousa, um insulto aos portugueses e à sua inteligência.

Por fim, a inenarrável curta entrevista de Vítor Ramalho ao Jornal das Nove, tentando explicar o obviamente inexplicável. Como logo percebi, Vítor Ramalho iria ali pôr em causa a mais que lógica atitude de um conjunto razoável de deputados do PS, no sentido de pedir ao Tribunal Constitucional a apreciação sucessiva da inconstitucionalidade de um conjunto de aspetos que se contêm no Orçamento de Estado há pouco entrado em vigor.

Em si mesmas, estas considerações valem rigorosamente nada, mas é possível tirar delas uma conclusão muito evidente, simples e clarificadora: foram os (ditos) socialistas como Vítor Ramalho que conduziram o PS ao abismo dos nossos dias. De resto, um abismo de onde, quase com toda a certeza, nunca voltará a sair. Ouvir falar Vítor Ramalho sobre o PS e o futuro do País constitui uma verdadeira tormenta ideológica. Um autêntico tudo em nada, fortemente perturbador da tranquilidade de quem olha o televisor. De resto, raramente acompanhando o Jornal das Nove, só o fiz desta vez para poder acompanhar o expectável desastre argumentativo de Vítor Ramalho. Mais um.



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