Um abismo
Publicado sábado, 14 de janeiro de 2012 | Por: Hélio Bernardo Lopes
Pude há dias acompanhar um interessante e esclarecedor debate que teve lugar na TVI 24, em torno do problema da Maçonaria e da sua posição face ao Estado e aos seus interesses. Um debate moderado por José Alberto Carvalho, e em que foram convidados, José Adelino Maltez, José Vera Jardim e Luís Marques Mendes. Em todo o caso, um debate muitíssimo esclarecedor.
Foi um debate esclarecedor por ter permitido mostrar que a Maçonaria esteve presente numa enormíssima gama de momentos fulcrais da História de Portugal, em especial nos Séculos XIX e XX. Pela voz autorizada de José Adelino Maltez, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e professor catedrático convidado da Faculdade de Direito de Lisboa, foi possível perceber o papel absolutamente essencial da Maçonaria nos dois séculos antes referidos.
Mas o académico permitiu ainda situar o problema que de facto está em causa por detrás da recente retoma da perseguição à Maçonaria: toda a péssima estrutura da nossa comunidade de informações, quase a funcionar em roda livre, e com uma estrutura fiscalizadora que, desde o seu início, ao tempo da governação de Aníbal Cavaco Silva, nunca foi coisa digna de registo.
Simplesmente, o facto que mais chamou a minha atenção foi o abismo cultural que separa José Adelino Maltez de Luís Marques Mendes. Este, se tivesse um mínimo de discernimento sobre o que estava em jogo, e perante a diferença cultural no tema que certamente depreenderia separá-lo de José Adelino, e até de José Vera Jardim, sem dúvida muito mais organizado sobre o que estava em causa, nunca ali deveria ter-se apresentado. E a razão é simples: Luís Marques Mendes ficou literalmente a anos-luz do saber, da cultura e da capacidade de equacionar o que estava em jogo nisto tudo.
Certamente de um modo intencional, o antigo líder laranja dá a sensação de não perceber que o ser-se da Maçonaria tem tanto de arriscado para a comunidade, como ser-se de qualquer outra sociedade que tenha como uma das suas regras o secretismo. Quando o representante nacional da Opus Dei nos vem agora dizer que o único deputado da Obra é João Bosco Mota Amaral, em que se fica Luís Marques Mendes, se por acaso conhece um mínimo sobre a instituição? Acredita? Desacredita? Ou consegue compreender que tal questão se constitui num problema mal formulado?
Certo, isso sim, é o que lhe referiu José Vera Jardim: seguir o caminho de Luís Marques Mendes será sempre uma violação da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Ter-se esta ou aquela religião, ser-se desta ou daquela estrutura estrita e filantrópica, ou filosófica, não pode ser alvo de escrutínio enquanto tal.
E igualmente certo é que Luís Marques Mendes, mau grado nunca usar a expressão Opus Dei – ora, ora –, lá se viu na contingência de ter de aceitar que a regra que vinha defendendo para a Maçonaria também teria de empregar-se para as restantes organizações marcadas pelo segredo, apesar de até esse momento, nunca as ter referido... E então? Acredita que João Bosco Mota Amaral é o único membro da Opus Dei na Assembleia da República? Terá sido ele que convidou Assunção Esteves, que recusou o convite? E, sendo Mota Amaral um numerário, existirão outros que estão ligados à instituição, mas não são numerários? E será que existem funcionários da Assembleia da República que são da Opus Dei, numerário ou não? E o que sugere Luís Marques Mendes? Uma investigação a ser realizada pelo Ministério Público, com a finalidade de se saber quem é o quê onde? E se o investigador for, afinal, mação, ou opusdeísta ou rosa-cruciano?
Termino, pois, com este meu ponto de vista: quando se quer debater um tema destes, com a riqueza histórico-filosófica que contém, tem que se ter a noção de quem se tem pela frente e do que realmente se vale no domínio em causa, porque se assim se não proceder, bom, pode levar-se publicamente um autêntico tareão.
Foi um debate esclarecedor por ter permitido mostrar que a Maçonaria esteve presente numa enormíssima gama de momentos fulcrais da História de Portugal, em especial nos Séculos XIX e XX. Pela voz autorizada de José Adelino Maltez, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e professor catedrático convidado da Faculdade de Direito de Lisboa, foi possível perceber o papel absolutamente essencial da Maçonaria nos dois séculos antes referidos.
Mas o académico permitiu ainda situar o problema que de facto está em causa por detrás da recente retoma da perseguição à Maçonaria: toda a péssima estrutura da nossa comunidade de informações, quase a funcionar em roda livre, e com uma estrutura fiscalizadora que, desde o seu início, ao tempo da governação de Aníbal Cavaco Silva, nunca foi coisa digna de registo.
Simplesmente, o facto que mais chamou a minha atenção foi o abismo cultural que separa José Adelino Maltez de Luís Marques Mendes. Este, se tivesse um mínimo de discernimento sobre o que estava em jogo, e perante a diferença cultural no tema que certamente depreenderia separá-lo de José Adelino, e até de José Vera Jardim, sem dúvida muito mais organizado sobre o que estava em causa, nunca ali deveria ter-se apresentado. E a razão é simples: Luís Marques Mendes ficou literalmente a anos-luz do saber, da cultura e da capacidade de equacionar o que estava em jogo nisto tudo.
Certamente de um modo intencional, o antigo líder laranja dá a sensação de não perceber que o ser-se da Maçonaria tem tanto de arriscado para a comunidade, como ser-se de qualquer outra sociedade que tenha como uma das suas regras o secretismo. Quando o representante nacional da Opus Dei nos vem agora dizer que o único deputado da Obra é João Bosco Mota Amaral, em que se fica Luís Marques Mendes, se por acaso conhece um mínimo sobre a instituição? Acredita? Desacredita? Ou consegue compreender que tal questão se constitui num problema mal formulado?
Certo, isso sim, é o que lhe referiu José Vera Jardim: seguir o caminho de Luís Marques Mendes será sempre uma violação da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Ter-se esta ou aquela religião, ser-se desta ou daquela estrutura estrita e filantrópica, ou filosófica, não pode ser alvo de escrutínio enquanto tal.
E igualmente certo é que Luís Marques Mendes, mau grado nunca usar a expressão Opus Dei – ora, ora –, lá se viu na contingência de ter de aceitar que a regra que vinha defendendo para a Maçonaria também teria de empregar-se para as restantes organizações marcadas pelo segredo, apesar de até esse momento, nunca as ter referido... E então? Acredita que João Bosco Mota Amaral é o único membro da Opus Dei na Assembleia da República? Terá sido ele que convidou Assunção Esteves, que recusou o convite? E, sendo Mota Amaral um numerário, existirão outros que estão ligados à instituição, mas não são numerários? E será que existem funcionários da Assembleia da República que são da Opus Dei, numerário ou não? E o que sugere Luís Marques Mendes? Uma investigação a ser realizada pelo Ministério Público, com a finalidade de se saber quem é o quê onde? E se o investigador for, afinal, mação, ou opusdeísta ou rosa-cruciano?
Termino, pois, com este meu ponto de vista: quando se quer debater um tema destes, com a riqueza histórico-filosófica que contém, tem que se ter a noção de quem se tem pela frente e do que realmente se vale no domínio em causa, porque se assim se não proceder, bom, pode levar-se publicamente um autêntico tareão.

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